
Disposição para encarar horas de estrada à noite (e nem sempre nas melhores condições de visibilidade), ajuda da tecnologia, compartilhamento de informação e sorte são as ferramentas que os caçadores de aurora boreal dispõem para conseguir ver esse que é considerado por muitos o maior espetáculo natural da Terra.
Devido à sua localização, o Canadá é um país privilegiado em relação à visualização do fenômeno, que é resultado do redirecionamento pelo campo magnético do planeta dos ventos solares, provocando explosões multicoloridas no céu.
Natural do estado da Bahia, no nordeste do Brasil, o casal Suzana Andrade e Danilo Abijaude vive na cidade de London, na província de Ontario. Desde que se mudaram para o Canadá, há aproximadamente cinco anos, conseguiram ver a aurora boreal duas vezes e guardam com muito carinho essas experiências.
“É uma sensação indescritível. Para mim, é uma obra de arte da natureza, uma pintura natural do cara lá de cima. Não tem como definir aquela explosão de cores. Não tem como explicar, não tem como esquecer e não tem como não se apaixonar”, relata Suzana.
Para Danilo, ver o fenômeno era um sonho de infância que nasceu nas aulas de física e um ex-professor descrevia a beleza da chuva de luzes coloridas. “Naquele momento que começamos a olhar para o céu e as cores foram aparecendo, a sensação foi muito boa. A gente dava risada, tirava foto. Foi um marco nas nossas vidas”, disse.
Primeira Aurora Boreal: uma experiência inesquecível
A experiência aconteceu em meio às fazendas da região de Grand Bend. Já era madrugada quando eles conseguiram ver as primeiras cores a olho nu. A saga, no entanto, começou no início do dia, após o aplicativo My Aurora Forecast & Alerts emitir o alerta de que haveria a possibilidade do fenômeno ocorrer.
Por volta das 21h, diversas fotos já estavam sendo compartilhadas nas redes sociais por pessoas que vivem na província de Ontário. Danilo e Suzana então decidiram que era hora de “pegar estrada”. Com o GPS em mãos, se dirigiram ao norte.
Mais de duas horas depois, no entanto, nem um fóton sequer havia sido visto. O casal cogitou desistir, até que encontrou uma via menos iluminada e Suzana apontou a câmera do celular para o céu. Eis que o visor do aparelho mostrou onde estavam acontecendo mudanças de tonalidade e isso funcionou como uma bússola para que eles finalmente pudessem viver a experiência tão desejada.
Três tentativas e “perrengue chique”
Aquela foi a terceira tentativa do casal de ver a aurora boreal. Nas duas primeiras, as luzes deram lugar à frustração. Suzana conta que na primeira incursão, em pleno dia de semana, por volta das 23h, recebeu o alerta. Eles, então, deixaram o conforto da calefação para encarar a estrada já quase coberta de neblina.
Duas horas depois, nem mesmo a rodovia era possível se avistar e luzes coloridas somente as do painel do carro. O casal foi obrigado a voltar para casa. “O aplicativo dizia que havia visibilidade, mas a gente não via nada. Voltamos para casa umas 3 am e tivemos que trabalhar no outro dia cansados e frustrados”, lamenta Danilo.
Apesar dos pesares, eles encaram com muito bom humor e naturalidade as adversidades dessas incursões. Acostumados com as estradas brasileiras, que na sua maioria não contam com a segurança e a infraestrutura canadenses, literalmente riem dos “perrengues chiques” que encontram por aqui.
“Essas aventuras são facilitadas pela segurança das estradas, que permite aos viajantes ir e vir madrugada adentro tranquilos. A única preocupação é ter gasolina. Isso é um ponto muito positivo daqui porque a gente para e fica no meio das fazendas sem medo”, disse Suzana.
Sinais do céu e da web
Por se tratar de um fenômeno natural que pode acontecer a qualquer época do ano e de maneira muito inesperada, toda ajuda e planejamento são bem-vindos para aumentar as chances de sucesso.
Danilo conta que, após receber a notificação do aplicativo My Aurora Forecast & Alerts, verifica o site Space Weather Prediction Center, do governo dos EUA, para ter uma estimativa mais precisa.
Ele então inicia o acompanhamento nos grupos de caçadores de aurora boreal nas redes sociais. Esse passo a passo evita que ele perca viagens, como já aconteceu em outras oportunidades.
É necessário ainda considerar as condições meteorológicas, pois em dias muito nublados a visualização é praticamente impossível. Suzana relembra que a experiência adquirida tem sido útil para organizar as caçadas.
“Já recebemos alertas de que iria acontecer, mas pelo fato do tempo estar muito nublado, nem saímos de casa. A aurora boreal é um fenômeno que não tem hora para acontecer, mas como a visualização depende muito das condições climáticas, os registros no verão terminam sendo mais frequentes”, concluiu.









































