
Sacolé, flau, dudu, juju, laranjinha, chupchup, gelinho, dindim. É infinita a lista de sinônimos para essa sobremesa gelada muito popular no Brasil, que há muito tempo é fabricada de maneira artesanal e vendida de porta em porta, ou em pequenos comércios de bairros do país. Tão grande quanto a lista de nomes, é a variedade de sabores: de frutas tropicais, como manga, umbu e acerola, até chocolate, amendoim e tapioca, passando por leite condensado e suco de milho, praticamente todo ingrediente é possível de ser transformado em geladinho.
Na cidade de Toronto, mais especificamente na Avenida Silverthorn, nº 9, também é possível encontrar essa verdadeira ampola da felicidade. O café de “comida de rua” brasileira – Geladona – oferece mais de 30 sabores do autêntico picolé brasileiro, além de diversas outras opções gastronômicas, como bolos, doces, sanduíches e pão de queijo. O café se afirma também como um refúgio para a comunidade queer brasileira e um espaço seguro para quem busca conexão, conforto e um gostinho de casa.
O empreendimento é comandado pelo casal Mari, natural de São Paulo, e Flor, que nasceu na cidade de Torres, interior do Rio Grande do Sul, mas viveu uma vida nômade em 20 estados do Brasil, antes de se mudar para o Canadá. Elas se conheceram em 2017, já em solo canadense e, no ano seguinte, começaram a construir uma vida juntas.
Como costuma acontecer na vida de muitos imigrantes, antes de empreenderem elas tiveram que trabalhar em diferentes lugares. Mari passou por cafés e restaurantes, como o Bar Buca, Mercatto e Le Gourmand. Além de landscaping, atuou na área cultural como produtora de eventos e percussionista, funções que ainda hoje exerce em projetos como o Jambucá.
Flor, por sua vez, se formou em arquitetura e atuou como coordenadora de projetos por seis anos. Durante a faculdade, trabalhou como barista para um café canadense e lá se desenvolveu na área de atendimento ao cliente. Desde a infância, ela acompanhava a mãe na cozinha, o que a deixava bastante à vontade para descobrir os segredos e alquimias dos “baked goods”.
Nasce o Geladona
O Geladona nasce em meio ao lockdown imposto pela pandemia de covid-19 e os problemas econômicos que atingiram diversas pessoas do mundo naquele momento. Na origem do negócio, veio também a inclusão, o acolhimento e a defesa das minorias identitárias. “Todo dia é um dia de luta pelo simples fato de sermos imigrantes”, destacou Mari em entrevista para a Brazilian Wave.
O empreendimento, inclusive, inaugurou a produção comercial de geladinhos na vida de Mari e Flor, que nunca haviam fabricado o produto para venda, até então. Mari tinha os saquinhos do Brasil e fazia para alguns eventos que produzia, mas nada em larga escala. Com o aperto financeiro e sua mãe batalhando entre a vida e a morte, Mari teve a ideia de seguir o exemplo de muitas matriarcas do Brasil e vender geladinhos para complementar a renda. A iniciativa foi um sucesso. “Era a única coisa que faltava no Canadá. A gente já tinha acesso a tudo do Brasil, menos aos geladinhos. E os canadenses adoram conhecer os nossos sabores tropicais”, destacou.
Aconchego e conexão
Elas lembram que, quando decidiram abrir as portas, o foco, a princípio, era a produção de alimentos. No entanto, encontraram uma comunidade que buscava aconchego. “Entendemos que o povo estava atrás da nossa comida caseira, mas também da cultura, música, tempero e espaço para desabafos, conselhos e encontros”, disse Mari.
Assim, o Geladona rapidamente se tornou local de portas abertas – que comparam ao afetuoso “abraço de vó” e onde cada mordida se traduz em “choro de saudades e alegria”.
O espaço permite conexão com culturas distantes da brasileira e que também carregam o “geladinho” nas suas histórias. Nas Filipinas, por exemplo, a sobremesa é chamada de “ice candy”, enquanto na Índia atende pelo nome de “pepsi” e, na Colômbia, é o “bolis”. A escolha do nome do café Geladona seguiu essa lógica de conexão. “Foi uma brincadeira com um temperinho da cultura. Pensamos ainda na pronúncia em inglês. O nome se adaptou tão rápido que as pessoas já se referem ao produto como geladona”, frisou Mari.
Uma história de sucesso
O negócio tocado por Mari e Flor é, sem dúvida, o que os especialistas definem como caso de sucesso. Em meio às dificuldades financeiras tão comuns aos pequenos empreendedores, sobretudo no período pandêmico, elas tiveram que se virar e deu certo.
Os primeiros ingredientes foram comprados com pontos de um cartão que, na época, era equivalente a 150 CAD. O investimento foi duplicado e seguiu em ascensão. Com o primeiro dinheiro que sobrou, antes de abrirem a loja, compraram uma bike de sorvete em um site de compra e venda para poder alavancar a marca.
Para além da dificuldade financeira, como o geladinho não é sorvete nem suco, foi complicado encontrar leis e aplicações para o produto em Toronto. Porém, com muito suor, estudo e jogo de cintura todos os entraves burocráticos foram se resolvendo e as peças se encaixando.
Em meio a tudo isso, contrariando a lógica de muitos empreendimentos especializados em gastronomia brasileira, quando começou a funcionar, mais de 70% dos clientes não eram brasileiros. Mari e Flor contam que as pessoas de outras nacionalidades que vivem no Canadá, além dos próprios canadenses, se encantam facilmente com o nosso tempero, frutas e sobremesas.
“O bolo de milho, por exemplo, virou uma febre. E depois que abrimos as portas, após termos feito nossa mais incrível parceria com a Padaria Toronto, foi que os brasileiros começaram a chegar junto”, disse Mari.
O café funciona de quarta a domingo, em horários variados. É possível ainda contratar a Bike Geladona para festas e eventos privados. “Acordamos realizadas todos os dias por termos construído um lugar que vai ficar marcado na memória, no coração e na boca de pessoas que amamos e tivemos a sorte de conhecer através do Geladona”, concluem.
Para mais informações e encomendas, visite o site https://www.geladona.com/












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