Entre beijos e abraços

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Entre beijos e abraços. (Foto: morguefile.com)

O espaço de um abraço é maior do que um beijo. Um abraço guarda dentro dele um mundo inteiro, o beijo, ah! o beijo é só um encontro de pele, jogado no rosto, formal, preciso, cauteloso, guardando distâncias, o abraço não. Ele é democrático, pode estar nos amantes, nos amigos, o beijo tem suas reservas. Foi com um beijo que o Mestre foi entregue, mas, depois, nós, todos juntos, O abraçamos.

O abraço é o desarme, é o encontro de corpos, e para ele não há movimentos de gênero, ele está presente em todos eles, geralmente sob os apupos dos risos, do bater nas costas, no afável, o beijo não. O beijo é definido pelos gêneros, e como gênero, o abraço é mais generoso.

No gol os jogadores se abraçam, significando união, sentimento de equipe. Está na alegria de dois amigos ou amigas que se encontram depois de longo tempo afastados, o abraço encerra um universo enrolado no corpo. Está nos encontros familiares, e é a forma de receber novos integrantes.

Talvez, no encontro dos chefes de estado, quando as mãos se procuram, faltem os abraços. Se se abraçassem, talvez desfizessem guerras, e pudessem assim consolidar acordos, demonstrando aos seus pares que nos abraços é que se perdem as vergonhas, as cores se misturam, os gêneros se encontram.

Os amantes, nos momentos de carinho se abraçam, mais do que se beijam. O abraço consola o infortúnio, ajuda e dá suporte na dor, o abraço é que recebe o choro, e é no abraço que se comemora a vitória, mais do que um cumprimento, o abraço é carinho, mais do que carinho é proteção do pai que acolhe o filho que se perdeu, e do filho que reencontrou nos pais as respostas que tanto procurou.

Nas avós e nos avôs, os netos são afogados em abraços, e suas cabeças pequeninas se desmancham de prazer, e é também neles que se escondem depois de suas travessuras.

Os abraços estão nas chegadas e nas partidas, como se fossem capazes de juntar pontas que estão se separando, ou que depois de tanto tempo se reencontram.

Existem os abraços que de longe se anunciam, abraçando o próprio corpo e ao longe alguém, com o mesmo gesto, se sente confortado.

Ao longe, os olhos brilham de alegria, quando acham aquele ou aquela que o coração procura, e é nos braços abertos que o amor se consuma.

Nilson Lattari. (Foto: Divulgação)

NILSON LATTARI é carioca, e atualmente morando em Juiz de Fora (MG), escritor, blogueiro em www.nilsonlattari.com.br e Facebook/blognilsonlattari. Vencedor do 29º Concurso de Contos Paulo Leminski 2018, Prêmios UFF de Literatura 2011 e 2014 e Prêmio Darcy 2014. Finalista em Livro de contos Prêmio SESC de Literatura 2013 e em romance Prêmio Rio de Literatura 2016. Menções honrosas em Poesia, Crônicas e Contos. Foi operador financeiro mas lidar com números não é o mesmo que lidar com palavras. Ambos levam ao infinito, porém em veículos diferentes. As palavras, no entanto, são as únicas que podem se valer da imaginação para um universo inexato e sem explicação.