Entre o paraíso e a sobrecarga – O que a maternidade realmente exige

Izabel Dolhy. Psicoterapeuta registrada (Qualifying) e diretora clínica da Inner Clarity Wellness and Mental Health Clinic. (Foto: arquivo pessoal)

Cresci ouvindo de muitas mães, inclusive da minha, que “ser mãe é padecer no paraíso”. A frase, atribuída ao poeta maranhense Coelho Neto, foi por muito tempo usada para romantizar a maternidade, transformando o sofrimento em algo inevitável, virtuoso e como experiência a ser vivida com gratidão constante.

Por décadas, esse imaginário sustentou a ideia de que a dor fazia parte do pacote de ser mãe. Nas últimas décadas, porém, esse romantismo perverso começou a se desfazer, abrindo espaço para conversas mais honestas sobre os desafios reais de uma responsabilidade tão profunda.

Expectativas sociais

A gravidez e a maternidade são atravessadas por uma exigência social persistente, que sugere que tudo seja vivido com alegria e sem espaço para desconforto, dúvida ou ambivalência. Apesar de sentirem felicidade e realização, futuras mães também experimentam vazios e inquietação. Para muitas, a gravidez não é só encantamento, sendo também marcada por transformações corporais intensas e difíceis, como enjoos, dores, cansaço e a perda das referências do próprio corpo. Por não corresponderem ao que se espera que uma mãe sinta, esses estranhamentos são muitas vezes vividos em solidão e silêncio, sobretudo quando a maternidade se desenvolve longe da família, em outro país e sem rede de apoio próxima.

Carga mental e trabalho emocional

E o que isso significa, na prática, para muitas de nós, mães? Significa que o peso se amplia quando a experiência vivida e o cuidado precisam ser sustentados quase inteiramente de forma solitária. Nesse contexto, a maternidade expõe os conceitos de carga mental e trabalho emocional, ou seja, formas invisíveis, repetitivas e pouco reconhecidas de trabalhos, que estruturam o cotidiano de muitas mães.

A carga mental envolve manter em funcionamento uma rede constante de decisões, lembretes e antecipações em consultas médicas, rotinas de sono, alimentação, segurança, organização da casa, etc. Mesmo quando essas tarefas não são executadas diretamente pela mãe, é geralmente ela quem sustenta a responsabilidade de pensá-las, acompanhá-las e coordená-las. As exigências, que são contínuas, deixam pouco lugar para o descanso mental e sobrecarregam as mães.

O trabalho emocional compreende a gestão constante das emoções. As respostas às exigências da criança são demandas permanentes que, por vezes, levam a frustrações da mãe. Mesmo quando há pausas físicas ou alguma divisão de tarefas com o companheiro, a preocupação persiste para além daquele momento imediato e da presença direta.

A carga mental e o trabalho emocional nas etapas de gestação e pós-parto tratam de um trabalho profundo, silencioso e exigente, que organiza a maternidade de dentro para fora. Embora tudo isso, esses esforços são raramente reconhecidos

O que diz a neurociência

A neurociência ajuda a compreender por que esse peso é tão concreto: gravidez e início da maternidade correspondem a um dos períodos de maior reorganização cerebral da vida adulta. Regiões ligadas à atenção, regulação emocional e leitura de sinais sociais passam por mudanças significativas, afinando o cérebro para o cuidado. Essa adaptação torna a mãe mais sensível às necessidades do bebê e ao ambiente, deixando-a mais vulnerável a sobrecargas, quando estão sem o apoio adequado. Nesse contexto, o chamado “mom brain” deixa de ser um defeito individual ou sinal de incompetência e passa a ser compreendido como o efeito previsível de uma mente constantemente ocupada.

O pós-parto é igualmente delicado: o nascimento do bebê provoca queda abrupta de hormônios, afetando o humor, a motivação e a regulação emocional. Embora oscilações de humor sejam comuns, uma parcela significativa das mães desenvolve depressão pós-parto, um quadro com características próprias, ligado a alterações em áreas do cérebro associadas ao vínculo e ao cuidado. O sofrimento materno, portanto, não é falta de preparo nem fragilidade individual, mas é parte de um processo biológico profundo vivido em condições frequentemente adversas.

Para além do sacrifício silencioso

Estudos recentes indicam que os efeitos da maternidade no cérebro vão além dos primeiros meses. A parentalidade tem sido associada a uma transformação duradoura, fruto da complexidade da atenção e adaptação contínuas. Esses potenciais benefícios, porém, não surgem do sacrifício silencioso, mas das condições em que o cuidado acontece.

Desfazer o mito de que ser mãe é “padecer no paraíso” exige reconhecer que a maternidade acontece na interseção entre cultura, corpo e cérebro. Deixar a carga mental e o trabalho emocional invisíveis, reduz o sofrimento materno a uma falha individual. Também, ignora o desequilíbrio estrutural que existe entre o que se exige de quem cuida e o que se oferece em troca.

A questão maior, então, não é “por que essa mãe não dá conta?”, mas “que suporte coletivo estamos dispostos a construir?”. Cuidar das mães não é um gesto individual indulgente. É sim, responsabilidade social e investimento na saúde de todos.

(*) Izabel Dolhy é psicoterapeuta registrada (Qualifying) e diretora clínica da Inner Clarity Wellness and Mental Health Clinic. Contato: [email protected]. Para mais informações, visite o site oficial: https://innerclaritywellness.ca




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