Entrevista com Maestrina Danielle Lisboa

Sob a batuta de uma brasileira

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Maestrina Danielle Lisboa

Sob a batuta de uma brasileira:

Por Arthur Vianna

A comunidade brasileira no Canadá sente-se orgulhosa pela qualidade do trabalho e pela riqueza do currículo da maestrina Danielle Lisboa. Seu primeiro desafio foi conquistar um merecido espaço como regente de orquestra, posição tradicionalmente masculina. Assim que chegou ao Canadá, em 2008, tornou-se a primeira aprendiz de maestro da Orquestra Toronto. Em apenas dois meses, foi nomeada maestro assistente, logo após, diretora musical e, finalmente, maestrina da Orquestra. Sob a sua batuta, a Orquestra Toronto aumentou as suas audições e se tornou mais conhecida, em especial junto ao público mais jovem. Com doutorado em condução orquestral, Danielle recebeu inúmeras bolsas e prêmios ao longo dos anos. Desde 2013, ela mora com a sua família em Edmonton e atua como professora assistente de música da Concordia University nas áreas de regência, música de câmara e teoria musical.

Wave – Depois de atuar tantos anos como regente titular da Orquestra Toronto, como foi a mudança para Edmonton?

Danielle Lisboa – Minha família e eu levamos um tempinho para nos ajustar à nova cidade, mas hoje estamos completamente adaptados. Toda mudança requer uma dose de bravura e também paciência para que, a tempo devido, possamos nos inserir em novos círculos profissionais e de amizade. Estou satisfeita com a decisão tomada e carrego comigo uma nostalgia saudável da fase vivida em Toronto.

Wave – Você sempre buscou levar outras atividades musicais para o público. Assim foi com o Concurso de Concerto Marta Hidy, os Children’s Concerts e mesmo com a criação da Bellus Barbari, a Orquestra Sinfônica Feminina de Toronto. Quais os seus projetos mais recentes?

Danielle Lisboa – Além do meu trabalho como Professora Assistente, sou titular de duas orquestras aqui em Edmonton: a Concordia Symphony Orchestra e a Edmonton Philharmonic Orchestra. São orquestras muito distintas. A Concordia Symphony Orchestra se caracteriza pela inovação no formato de concertos e programas de repertório e conta com músicos profissionais na sua formação apresentando-se em teatros como o Winspear Centre for the Arts. A Concordia Symphony lançará́ no mês que vem uma competição em nível provincial para jovens solistas que inclui um prêmio de C$1000.00 ao vencedor e uma oportunidade de se apresentar na temporada 19-20. No último dia 15, apresentamos ao público de Edmonton a primeira audição de uma obra comissionada do compositor Canadense, Allan Bevan, no Winspear Centre que envolveu nossa orquestra, Edmonton Metropolitan Chorus (coro misto de 100 vozes), quatro solistas, multimídia, e dois atores. Por outro lado, a Edmonton Philharmonic se destaca pela sua missão social, com concertos gratuitos e é inteiramente formada por músicos voluntários da comunidade. Os concertos são direcionados para uma população mais vulnerável, com reservas de locomoção, ou para um público infantil – e a orquestra vai ao encontro do seu público em hospitais, escolas e casas geriátricas. Teremos em breve um concerto que acolherá crianças sensíveis a estímulos ambientais e para pacientes de Alzheimer – para que possam dançar durante o show. É um trabalho muitíssimo gratificante onde tenho um papel “regente-apresentador” com contato direto com a plateia. Faço questão de cumprimentar a todos, um a um, e de poder dar-lhes uma atenção especial.

Wave – Sua xará Danielle Groen escreveu certa vez um longo artigo sobre porque existem tão poucas maestrinas. Como você consegue superar, caso existam, as barreiras de ser mulher, mãe e reger uma orquestra?

Danielle Lisboa – Esse assunto dá pano para manga… estamos avançando, o que é positivo, mas certamente não há como negar as lacunas da equidade na profissão. Ainda não jogamos em um campo com condições de concorrência equitativa. Em 2017, apresentei um trabalho sobre o assunto na Conferência “Mulher em Liderança” na Universidade do Porto, Portugal. Estamos caminhando, quebrando tabus, e fundamentalmente facilitando caminhos para a próxima geração de maestrinas.

Wave – No Brasil, a legislação que torna o ensino de música obrigatório nas escolas completou dez anos, mas, infelizmente, ainda não saiu do papel. Qual a importância da música na formação da criança?

Danielle Lisboa – Essa lei foi ampliada para incluir, além da música, as artes plásticas, teatro e dança… temos tudo para virar o jogo. E tudo começa pela raiz – com um ensino fundamental pleno – um ensino equilibrado que, além das exatas, ressalta também a importância das artes na formação do individuo, que por sua vez, toca na sensibilidade humana. Um individuo pleno exercita a tolerância em todas as suas formas: de gostos, credo, raça, gênero e a lista vai… precisamos eleger líderes com visão ampla e vontade política para reconhecer e alimentar as necessidades mais íntimas do indivíduo para que estas se reflitam no bem comum.

Wave – O Brasil é muito conhecido por sua música popular, mas não pelas suas músicas clássicas. Como superar?

Danielle Lisboa – É verdade… nomes como Carlos Gomes, Villa-Lobos, Camargo Guarnieri são talvez mais conhecidos do público leigo, mas ainda temos um longo caminho pela frente de divulgação do nosso talento nacional tanto no Brasil, como no exterior. Acompanho a atividade de colegas, compositores ativos no cenário brasileiro atual, e o que vejo é uma abundância de obras de peso, com profundidade artística – que são uma necessidade social para contrabalançar nosso mundo materialista. Precisamos lutar, mesmo de longe, expressar nossa indignação e ser uma voz pela volta ao incentivo à cultura e às ciências humanas no Brasil, pela criação de leis que fomentam o patrocínio de experiências culturais ao público em geral. O progresso intelectual e a sensibilidade artística de uma sociedade andam lado a lado com seu progresso financeiro – são um espelho da prosperidade de um país.