Ilustradora brasileira no Canadá – Entrevista com Mariana Ikuta

Vivendo em Vancouver desde 2016, a ilustradora e designer brasileira Mariana Ikuta construiu uma carreira que ultrapassa fronteiras e transforma experiências como maternidade, identidade e pertencimento em inspiração para a sua criação artística.

Ilustração de Mariana Ikuta: Maiden, Mother, Crone

Formada em design gráfico, a ilustradora brasileira, Mariana Ikuta iniciou a sua carreira em Porto Alegre, em 2014. Pouco tempo depois, mudou-se para Nova Iorque, onde trabalhou como freelancer, até se estabelecer no Canadá. Foi em Vancouver que encontrou um novo caminho artístico: o universo dos livros infantis. Após estudar na Emily Carr University, deu início ao projeto que viria a se tornar “Dia de Inventar”, obra publicada no Brasil pela editora Carochinha e que celebra a criatividade e o olhar sensível da infância.

Illustração de Mariana Ikuta: Son/Sun

É na maternidade que a sua arte ganha ainda mais profundidade

Em trabalhos autorais como My Son/Sun, Mariana traduz a dualidade intensa de ser mãe, entre a plenitude e o esgotamento, a luz e a fragilidade. A obra, já exposta em galeria, reflete o equilíbrio delicado entre presença e transformação, sentimentos que se intensificam em datas como o Dia das Mães. “Meu filho é minha maior fonte de luz, mas a maternidade também traz desafios profundos. Existe uma linha tênue entre dar tudo de si e sentir que não resta mais nada”, revela a artista.

A vivência entre culturas — brasileira, japonesa e canadense — também marca o seu trabalho. Em Triptych, Mariana explora as três fases da vida e identidades culturais distintas, conectando infância, maternidade e pertencimento em uma narrativa visual poética. Essa sensação de viver “entre mundos” acompanha a artista desde a infância e se fortaleceu ao longo de sua jornada internacional.

Apesar das oportunidades no mercado criativo canadense, Mariana destaca os desafios. “É um mercado vasto, mas extremamente competitivo. Ao mesmo tempo, há espaço para quem constrói uma trajetória consistente e busca conexões reais”, afirma.
Hoje, além do trabalho como designer e como ilustradora, ela mantém uma produção autoral ativa. Mariana compartilha os seus processos criativos por meio de uma newsletter. Para o Dia das Mães, prepara também novos produtos inspirados nesse universo afetivo que atravessa a sua obra.

A história de Mariana Ikuta é, acima de tudo, sobre reinvenção. Entre países, linguagens e diferentes fases da vida, a sua arte encontra no afeto, especialmente no materno, um espaço para existir, florescer e emocionar.

Ilustrações de Mariana Ikuta : Flowers (esq.) et Shower (dir.)

Entrevista com Mariana Ikuta

WAVE – Como foi o processo de adaptação à vida em Vancouver e de que forma essa mudança impactou na sua identidade artística e de ilustradora?
MARIANA IKUTA
– Foi aqui em Vancouver que tive o meu primeiro contato com a produção de livros infantis. Fiz alguns “continuing studies” na Emily Carr University, em Vancouver, e aprendi sobre o processo e o mercado. Em uma dessas aulas, comecei um livro que acabou se tornando o “Dia de Inventar”, publicado no Brasil pela editora Carochinha. Me apaixonei pelo processo e pelo universo de possibilidades que esse mercado permitia. Também tive a experiência de conhecer vários artistas de diferentes áreas por aqui. Vancouver é uma cidade com muita produção voltada ao cinema e à TV, então, tem muita gente que trabalha nesse mercado.

Meu marido trabalha em uma empresa de animação, então ficamos rodeados de pessoas muito incríveis e talentosas. Um dos meus melhores amigos trabalhava desenvolvendo jogos indie, outra também era ilustradora e animadora, vários trabalham fazendo efeitos especiais em filmes. Aqui tem muita gente que vive bem trabalhando em indústrias criativas, algo que era muito raro de ver no Brasil na época em que fomos embora.

WAVE – Você menciona viver “entre dois mundos”. De que maneira essa dualidade cultural se manifesta nas suas ilustrações e narrativas?
MARIANA IKUTA
– Mesmo quando eu morava no Brasil, nunca me senti “única”. Por ter descendência japonesa e morar no Sul, questões culturais e de pertencimento sempre foram bem presentes na minha vida. Desde pequena, parecia que existiam vários mundos que não coexistiam fora de mim.

Minha família é do interior de São Paulo, e boa parte da minha infância passei por lá. Trago bastante inspiração de elementos específicos dessa época. Desde que me mudei para o Canadá, duas coisas se tornaram mais evidentes: a conexão com a natureza, daqui e de lá, e a busca por comunidade e conexão humana.

WAVE – O mercado criativo no Canadá é bastante diversificado. Como você enxerga o espaço para ilustradores e autores de livros infantis no país?
MARIANA IKUTA – O mercado norte-americano para livros infantis é extremamente vasto e rico, com muitas vozes e oportunidades. Em compensação, é extremamente competitivo. Então, apesar de existirem muito mais opções e uma linha de trabalho que permite viver disso, é bem difícil entrar e se estabelecer nele.
O mercado de ilustração está bem diferente no momento com o advento da IA. Existem oportunidades, mas estamos em um período difícil e bem competitivo.

WAVE – Trabalhar com clientes como The Globe and Mail e Vancouver Aquarium lhe trouxe quais aprendizados sobre o mercado editorial e comercial canadense?
MARIANA IKUTA – O que posso dizer de similar sobre esses dois trabalhos é que foram clientes incríveis, tanto pela liberdade artística quanto pela comunicação no processo. Também trabalhei com eles logo quando me mudei, o que foi muito motivador e inspirador.

WAVE – Há diferenças marcantes entre o mercado brasileiro e o canadense no que diz respeito à valorização da ilustração e dos livros infantis?
MARIANA IKUTA – Com certeza. Talvez não em termos de apreço ao trabalho em si, mas monetariamente e em oportunidades. Aqui, pelo mercado ser mais estabilizado (isso considerando os EUA, porque só o canadense é mais restrito), conheço vários artistas que conseguem viver só como ilustradores. Criar livros infantis é um processo bem longo. Um projeto curto dura quatro meses de trabalho; tem livros que podem levar mais de um ano. O tempo de publicação nas editoras também é bem lento.

No geral, depois que você vende um livro, precisa esperar pelo menos um ano até ele ser realmente publicado. Você tem que trabalhar com o “long game” e ter produção constante, mas é possível. No Brasil acho que também é, mas acredito que seja mais difícil trabalhar só nesse nicho. O que, por um lado, é bom também. Acho que essa é uma tendência para os criativos no momento: ter várias fontes de renda.

No Brasil fiz vários freelas no mercado infantil para produção educacional, muitas vezes atrelados a editais do governo. Infelizmente o mercado de livros, tanto aqui quanto lá, não é muito linear ou monetariamente estável, e no Brasil existe pelo menos esse incentivo governamental que estimula o mercado criativo de forma constante.

Aqui no Canadá, há muitas publicações de revistas, jogos e também projetos educacionais que podem trazer outras fontes de renda.

WAVE – Como a vivência em Vancouver influencia o seu processo criativo, especialmente ao explorar emoções e o “mundo interior” nos seus trabalhos?
MARIANA IKUTA – Uma coisa muito diferente daqui é que a noção de individualidade do canadense é muito diferente da do brasileiro. Onde você termina e o outro começa é muito mais separado. É muito fácil se sentir isolado em um mar de pessoas, o que, por um lado, permite que você seja um indivíduo sem tanto julgamento do outro; porém, também torna mais difícil a conexão humana.
Por eu ser uma pessoa mais introspectiva, essa percepção do mundo e a existência nele me inspiram bastante. É algo que reflito e tento explorar: a contradição entre liberdade e isolamento pessoal.

WAVE – Para artistas brasileiros que desejam atuar no Canadá, quais desafios e oportunidades você destacaria a partir da sua experiência?
MARIANA IKUTA
– Acho que morar no exterior amplia a visão sobre as oportunidades que existem fora do Brasil, pois todos apresentamos nossos trabalhos nas mesmas plataformas online. Acho que o principal é encontrar comunidades criativas e espaços onde você consiga desenvolver a sua arte, expô-la e se conectar com outras pessoas.

Entrar em qualquer mercado sem conexões é sempre difícil. Para mim foi bem positivo fazer aulas e conhecer pessoas das áreas criativas por aqui. Através disso, você aprende mais sobre oportunidades e possibilidades de crescimento artístico.

A maior oportunidade que existe é, realmente, a concentração de pessoas com interesses parecidos, sensibilidades artísticas e ideais criativos. O importante é achar esse grupo que te inspira a ser quem você quer ser. Um espaço para você existir como ser criativo.


Visite o site de Mariana Ikuta: : marianayi.com




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