Entrevista com Rainer Cadete – Ator da novela “Quem Ama Cuida” da TV Globo Internacional

Rainer Cadete (Foto: divulgação)

Após mais de duas décadas de carreira, Rainer Cadete, 39 anos, segue em destaque na televisão. No ar na novela “Quem Ama Cuida”, da TV Globo Internacional, o ator dá vida ao dermatologista Dr. César, personagem que vem conquistando o público e ainda reserva muitas surpresas ao longo da trama.

O convite para integrar o elenco surgiu ainda durante as gravações da novela “Êta Mundo Melhor!”. Para Rainer, a possibilidade de concluir um trabalho antes de iniciar outro foi importante para mergulhar na preparação do novo papel. “Pude me despedir do personagem anterior e me dedicar à construção do Dr. César, que é uma das etapas do processo de que eu mais gosto.”

A produção também marca um novo encontro com profissionais que acompanham a sua trajetória. O ator volta a trabalhar com Walcyr Carrasco, Amora Mautner e Claudia Souto, reforçando uma parceria construída ao longo de diversos projetos.

onhecido por atuar em diferentes linguagens artísticas, o ator acredita que a sua inquietação criativa sempre guiou as suas escolhas. Além da atuação, Rainer desenvolve projetos na música, na literatura e na produção cultural, encarando cada nova ideia como uma oportunidade de experimentar diferentes formas de expressão.

Na novela, os temas centrais são o amor e as relações humanas. Para ele, a história convida o público a refletir sobre autoconhecimento, cuidado e amadurecimento emocional, mostrando que as conexões mais saudáveis começam pela forma como cada pessoa se relaciona consigo mesma.

Mesmo em uma época marcada pela intensa presença das redes sociais, o ator procura equilibrar a exposição pública com a preservação de sua vida pessoal. Para ele, mais importante do que a visibilidade é continuar encontrando sentido no trabalho artístico e na construção de personagens capazes de emocionar e provocar uma reflexão no público.

Sem estabelecer uma linha de chegada para a carreira, Rainer Cadete segue movido pela curiosidade e pelo desejo de continuar aprendendo. Entre os próximos objetivos, estão: a vontade de ampliar a sua atuação no cinema brasileiro, experimentar novos desafios e contar histórias que façam sentido para ele e para o público.

Wave Entrevista Rainer Cadete

WAVE MAGAZINE – A novela “Quem Ama Cuida” estreou recentemente e já vem despertando a curiosidade do público. Como foi receber o convite para viver o Dr. César e o que mais o atraiu nessa nova jornada?

RAINER CADETE – Receber o convite para viver o Dr. César foi uma alegria enorme. Eu ainda estava gravando “Êta Mundo Melhor!”, novela do Walcyr Carrasco e do Mauro Wilson, e ficou aquela expectativa para saber se uma novela ia emendar na outra. Quando me contaram que o César entraria um pouco depois na trama, fiquei muito feliz, porque pude ter um tempo para descansar, me despedir do Celso e mergulhar na preparação do novo personagem, que é uma das partes do trabalho de que eu mais gosto.

Eu tenho uma parceria muito bonita com o Walcyr, construída ao longo de oito novelas. Com a Amora Mautner, este é o nosso quinto trabalho juntos, e agora ainda tive a alegria de encontrar a Claudia Souto nessa equipe. Quando um projeto reúne profissionais com quem você tem tanta sintonia e confiança, é difícil dizer não. Existe uma sinergia muito grande entre nós, e acho que isso acaba aparecendo também na tela. Sempre procuro construir meus personagens a partir da vivência de profissionais da área. No caso do Dr. César, acompanhei médicos, estudei procedimentos e mergulhei nesse universo da dermatologia estética. O que mais me encanta nele é que, além de ser um profissional extremamente competente, pesquisador, palestrante e empresário de sucesso, ele acredita que a estética só faz sentido quando está a serviço da saúde e do bem-estar. Também estou acompanhando a novela como espectador e estou adorando o resultado. Acho que “Quem Ama Cuida” reúne tudo o que faz uma boa novela: emoção, humor, suspense e personagens cheios de camadas. Estou muito feliz de chegar para somar a essa história com um personagem completamente diferente de tudo o que já fiz e que ainda vai surpreender bastante o público.

WAVE MAGAZINE – Ao longo da sua carreira, você deu vida a personagens que marcaram a teledramaturgia brasileira. O que o Dr. César traz de diferente para você em relação aos papéis que já interpretou? Quais desafios que ele apresenta para você como ator?

RAINER CADETE – O que mais diferencia o Dr. César dos personagens que já fiz é justamente o arco dele. Ele começa a história vivendo uma vida que parece perfeita: uma família estruturada, uma carreira de sucesso, reconhecimento profissional. É um homem acostumado a melhorar o que já é bom, a apagar marcas, suavizar cicatrizes e devolver autoestima às pessoas. Mas a grande ironia é que ele vai descobrir que existem marcas que nenhum procedimento é capaz de apagar. Há feridas que não cicatrizam com laser, nem rugas que o tempo deixa na alma e que a ciência não alcança. Como ator, eu gosto muito dessa metáfora. Porque, no fim das contas, o Dr. César passa a entender que nem tudo na vida pode ser corrigido, controlado ou aperfeiçoado. E é justamente quando essa armadura começa a rachar que ele revela quem realmente é.

WAVE MAGAZINE – Com mais de vinte anos de trajetória artística, você construiu uma carreira sólida transitando entre televisão, teatro, cinema, música e literatura. Quando olha para essa caminhada, quais momentos considera mais decisivos para a sua formação profissional?

RAINER CADETE – Quando olho para a minha trajetória, percebo que o que sempre guiou as minhas escolhas foi a inquietação. Gosto de pensar que a arte é como uma mão: cada dedo representa uma possibilidade diferente de se comunicar. A atuação, a música, a escrita, o teatro… para mim, uma linguagem alimenta a outra. Talvez os momentos mais decisivos da minha formação tenham sido justamente aqueles em que eu me permiti explorar caminhos diferentes, mesmo sem me sentir completamente pronto. Em muitos momentos, deixei de esperar apenas pelos convites e passei a criar as minhas próprias oportunidades, desenvolvendo projetos autorais e produzindo as ideias que faziam sentido para mim. Essa inquietação talvez nem sempre apareça para o público, mas é ela que sustenta a minha carreira. Eu não consigo ficar completamente parado. Mesmo entre um trabalho e outro, ou durante as férias, minha cabeça continua criando, pesquisando, imaginando projetos. É esse movimento que me alimenta como artista e me faz continuar apaixonado pelo que faço.

WAVE MAGAZINE “Quem Ama Cuida” aborda temas que fazem parte do cotidiano de muitas famílias brasileiras. Na sua opinião, qual é a principal mensagem que a novela pretende transmitir ao público?

RAINER CADETE Eu acho que cada pessoa vai encontrar uma mensagem diferente ao assistir à novela, e essa é uma das coisas mais bonitas da dramaturgia. Recentemente, a Maria Ribeiro me deu de presente o livro “Por Que Amamos”, do Renato Noguera, e ele tem provocado muitas reflexões em mim. Uma delas é a de que o amor não é uma fórmula pronta; ele é um aprendizado, uma construção. Acho que “Quem Ama Cuida” conversa muito com essa ideia. Amar não é controlar, nem tentar transformar o outro naquilo que a gente gostaria que ele fosse. Antes de tudo, existe um caminho de autoconhecimento. Quanto mais a gente se conhece e aprende a cuidar de si, mais livre fica para cuidar do outro. Talvez essa seja a mensagem que mais me toca na novela: o amor não nasce da falta, nasce da presença. Quando ele deixa de ser uma busca por complemento e passa a ser um transbordamento, as relações ficam mais saudáveis, mais maduras e mais verdadeiras.

WAVE MAGAZINE – Em uma época em que a exposição é cada vez maior e as redes sociais aproximam artistas e fãs, como você lida com a responsabilidade de ser uma figura pública e com a influência que exerce sobre tantas pessoas?

RAINER CADETE – Eu acho que a exposição é uma consequência da profissão, não o motivo pelo qual eu escolhi ser artista. O que realmente me interessa continua sendo contar histórias. Antes do aplauso, existe o estudo, a pesquisa, a curiosidade e o trabalho. É aí que eu encontro sentido. As redes sociais aproximaram muito artistas e público, e isso é bonito. Mas eu também acho importante preservar um espaço onde nem tudo vira conteúdo. Algumas experiências precisam amadurecer antes de serem compartilhadas. Durante muito tempo, eu gostei que as pessoas lembrassem mais dos meus personagens do que de mim. Achava bonito esse mistério do intérprete, porque ele amplia as possibilidades de transformação. Hoje, sem abrir mão disso, também tenho vontade de que as pessoas conheçam um pouco mais o Rainer. Não para competir com os personagens, mas para entenderem de onde eles nascem.

No fim das contas, atuar me ensinou uma coisa muito valiosa: toda vez que você entra profundamente no ponto de vista de outra pessoa, você amplia o seu próprio. Talvez essa seja a maior magia da profissão. A atuação não muda só o personagem; ela muda quem o interpreta também.

WAVE MAGAZINE Todo artista carrega referências que ajudam a moldar a sua identidade profissional. Quais atores, cantores ou personalidades foram fontes de inspiração para você ao longo da sua vida e da carreira?

RAINER CADETE – A música da Marisa Monte mudou a minha genética artística. O Milton Nascimento me conecta a um estado transcendental. O Ailton Krenak ampliou profundamente a minha relação com a natureza. A Billie Holiday já acalmou o meu coração em dias difíceis. O Athos Bulcão sempre me reconecta com a minha origem em Brasília e me lembra que a arte pode fazer parte da paisagem e da vida. Tenho até um certo receio de fazer listas, porque elas são sempre injustas. Eu certamente esqueceria pessoas fundamentais para a minha formação. Mas existe um fio que une todas as minhas referências: são artistas e pensadores que expandem o meu repertório, aguçam a minha curiosidade e me fazem olhar para o mundo de um jeito diferente. Acho que é esse o maior presente que uma obra de arte pode nos dar.

WAVE MAGAZINE Além da atuação, você desenvolve projetos na música, na literatura e na produção cultural. Como consegue equilibrar tantas frentes criativas e o que cada uma delas acrescenta à sua trajetória?

RAINER CADETE Eu nunca me sentei para fazer um plano de carreira dizendo: “Agora vou escrever um livro”, “agora vou cantar”, “agora vou produzir”. As coisas acontecem porque algumas ideias simplesmente escolhem a linguagem em que querem nascer. Tem história que pede um palco. Tem história que pede uma canção. Tem história que pede uma câmera. E tem histórias que só cabem no silêncio de uma página. Talvez o maior desafio não seja equilibrar essas frentes, mas escutar o que cada ideia está pedindo. Quando uma inquietação aparece, procuro dar a ela a forma mais honesta possível. Também não tenho medo de começar sem dominar completamente um território. Estudo, me preparo, erro, peço ajuda e sigo. Acho que a criatividade também é um exercício de coragem.

No fundo, todas essas linguagens são apenas maneiras diferentes de alimentar a mesma curiosidade.

WAVE MAGAZINE – Você vive um momento intenso, com trabalhos na televisão, streaming, teatro, música e literatura. Quais são os sonhos e desafios que você ainda pretende realizar nos próximos anos?

RAINER CADETE – Acho que os sonhos mudam conforme a gente amadurece. Hoje, mais do que alcançar um lugar específico, eu quero continuar sendo surpreendido pela arte. Quero fazer personagens que me desafiem, escrever histórias que provoquem boas conversas, cantar quando a música fizer sentido e produzir projetos que talvez não existissem se eu não tivesse decidido tirá-los do papel. Também tenho um desejo enorme de me aproximar mais do cinema. O Brasil tem um cinema extraordinário, cheio de histórias que atravessam fronteiras, e eu adoraria fazer parte disso de maneira mais intensa. Mas talvez o maior desafio seja outro: continuar curioso. Depois de mais de vinte anos de profissão, ainda quero conseguir olhar para um roteiro como se fosse o primeiro, entrar numa sala de ensaio disposto a desaprender, ouvir uma ideia melhor do que a minha sem medo de mudar de caminho. Acho que é essa disponibilidade que mantém um artista vivo. No fim das contas, eu não sonho com uma linha de chegada. Sonho em continuar encontrando histórias que façam sentido para mim e que, de alguma maneira, também encontrem quem está do outro lado.





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