Entrevista – Dr. Luciano Minuzzi, MD, PHD

Professor e pesquisador do Departamento de Psiquiatria e Neurociências Comportamentais da McMaster University, Hamilton.

0
86
Dr. Luciano Minuzzi.

Não tem como falar de Hamilton sem citar a Universidade McMaster, instituição pública fundada em 1887, com ex-alunos em mais de 100 países e com nada menos do que 4 laureados com o Prêmio Nobel. Da mesma forma, não podemos mencionar a McMaster – ou Mac, como é conhecida – sem fazer uma referência ao professor Luciano Minuzzi. Brasileiro de Santiago (RS) e formado em Porto Alegre, Luciano Minuzzi é membro da McMaster há oito anos como professor e pesquisador do Departamento de Psiquiatria e Neurociências Comportamentais.

Wave – Qual foi a sua trajetória, como especialista em psiquiatria, até escolher e chegar ao Canadá?
Luciano Minuzzi – Eu me formei em medicina e completei a residência em psiquiatria pela Fundação Faculdade Federal de Ciências Médicas de Porto Alegre (hoje em dia, renomeada para Universidade Federal de Ciências da Saúde de Porto Alegre). No final da residência, houve uma oportunidade de fazer pesquisa em neuroimagem na Dinamarca. Assim que completei a residência, comecei o doutorado na Universidade de Aarhus (Dinamarca) onde estudei alterações químicas na transmissão cerebral em modelos animais de doenças psiquiátricas. Completando o doutorado, fiz um pós-doutorado em neuroimagem na Alemanha, no centro de pesquisa de Juelich. Quando estava completando o pós-doutorado, recebi um convite para fazer um segundo pós-doutorado na Universidade McGill, em Montreal. Foi quando eu cheguei ao Canadá pela primeira vez. Desde então, conclui o pós-doutorado e vim para a Universidade McMaster (em Hamilton, Ontario) onde fui contratado como professor.   

Wave – O que o levou a escolher o Canadá?
Luciano Minuzzi – Em primeiro lugar, a possibilidade de trabalhar em centros médicos e de pesquisa de ponta no mundo. Também me seduziu muito a possibilidade de conciliar a prática médica com pesquisa, o que no Brasil era muito difícil na época (especialmente relacionado a pesquisa).

Wave – Mesmo já com vários títulos e inúmeras publicações, incluindo pós-doutorados na Alemanha e no Canadá, como foi o processo de validação de seu diploma pelo Canadá? 
Luciano Minuzzi – O fato de eu ter vários títulos e publicações me ajudou a validar meu diploma no Canadá. Médicos que têm uma carreira acadêmica, podem ser contratados com o que se chama “licença acadêmica”, ou seja, a Universidade que está contratando vai referendar o médico junto ao Conselho de Medicina da província. Nesse caso, quem tem uma licença acadêmica pode ver pacientes apenas nos hospitais afiliados com a universidade. Para ter uma licença irrestrita, é necessário fazer todo o processo de validação do diploma conforme está descrito pelo conselho de medicina de cada província. 

Wave – Teve muita repercussão a divulgação de seu estudo sobre os danos causados nos cérebros de jogadores aposentados da CFL (Canadian Football League). O estudo resultou em alguma medida preventiva por parte da Liga?
Luciano Minuzzi – Sim, a repercussão do estudo foi muito boa. Na verdade, o estudo das consequências de danos repetitivos no cérebro causados por esporte ainda está no começo. Tanto a CFL quanto a NFL (Liga Nacional de Futebol dos Estados Unidos) já mudaram vários aspectos em termos de segurança baseados nos vários estudos que foram publicados até hoje. Na minha opinião precisamos de mais estudos longitudinais (estudos que seguimos vários jogadores por um período de tempo) para determinar os fatores que influenciam os danos cerebrais associados com contusões na cabeça. Existem dados que sugerem que não são necessárias múltiplas contusões na cabeça para produzir danos cerebrais sérios. Também são necessários estudos para avaliar o real benefício dos equipamentos de segurança (capacetes, por exemplo) em termos de prevenção de danos cerebrais.

Wave – Em suas áreas de atuação, quais os seus próximos projetos?
Luciano Minuzzi – Tenho muita sorte de trabalhar em um grupo com vários colegas com projetos muito interessantes. Por exemplo, estamos estudando marcadores biológicos (específicos exames de sangue, ou testes psicológicos, ou estudos de imagem do cérebro) que possam nos indicar quais pacientes teriam a tendência de responder mais rapidamente/lentamente no tratamento da depressão. Em outros estudos, estamos investigando alterações em áreas do cérebro no curso da doença bipolar (incluindo resposta ao tratamento). Estamos também engajados em estudos para encontrar marcadores biológicos que possibilitariam diminuir o risco de suicídio. E, é claro, o seguimento do estudo sobre danos cerebrais causados por impacto no esporte.

Wave – Como professor e pesquisador, qual o seu conselho para os jovens brasileiros que gostariam de estudar no Canadá? 
Luciano Minuzzi – Estudar muito e – no caso de carreira acadêmica – publicar bastante. No Canadá, de uma forma geral, se avalia muito a competência do aluno pelo seu currículo (notas, experiências de trabalho, publicações). Então para quem quer vir, meu conselho é começar a mostrar que é um bom estudante no Brasil mesmo. E, é claro, se preparar bem no inglês ou francês.