Invisibilidade social

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Invisibilidade social. Coluna de Fernando Alves.

Enfim chegados os tempos de resistências, minorias se fazem ouvir seja por rede social ou por manifestações, saindo de seus tetos e lutando pelos seus direitos. A cultura aos poucos busca se desentrelaçar dos abraços opressores das sociedades patriarcais. O Homem Invisível nos cinemas brasileiros, passa além de todo suspense, reflexão social. Os mais críticos poderiam definir como metáfora da vida, em que a mulher sempre foi a invisível. O que se pode tirar de fato histórico no filme é a parte em que o homem – com raríssimas exceções, corrobora sua virilidade por meio de controle de abuso moral e físico.

Coincidência ou não, março foi acariciado pelos deuses dos calendários contendo o Dia Internacional da Mulher. Dia em que praticamente todo mundo se manifestou em suas redes sociais – incluindo esse que vos escreve, acalentando seus próprios egos, desejando felicidade, sucesso e igualdade à todas as mulheres. Fato esse que um dia depois já havia sido esquecido pela curta memória dos consumidos pela liquidez das relações humanas.

Na manhã da segunda-feira, 9 de março, a preocupação e empatia, com racismo, com misoginia ou outro tipo de desventura criada pelo desamor do ser humano foi escarrada antes mesmo do café. Mulheres voltaram a ser inferiorizadas nas camadas sociais, não obtiveram um salário melhor, não subiram para o cargo merecido, não puderam sair com seu decote – sem serem sexualizadas, não puderam sair sem maquiagem – por estarem apenas sem paciência, não, não puderam!

O dicionário dos oprimidos tem o “não” em vários dialetos e muitos significados: sangue, morte, porrada, chute, chibatada, coronhada etc. Com vasto leque de origem totalitária, machista, misógina, racista, o amanhecer social vem ganhando ares de distopia constante e alarmante. Na Era dos Invisíveis, existem ainda os que ficam à margem do acariciados: gays, lésbicas, negros, mulheres e pobres, todos jogados nos baldes da indigência. Tratados como desvalidos, ressurgem da invisibilidade apenas como atores coadjuvantes de propaganda eleitoral.

A invisibilidade, oriunda da cegueira moral, pode não dar segunda chance, o opressor por obra do acaso – ou do capitalismo, pode vir a se tornar o oprimido, em toda essa liquidez empática e sentimental. A casa grande seguirá como patrona das ações humanas até quando a sociedade enxergar nela um mantra – e negligenciar o fator principal de toda história: humanidade!

Portando, sempre cabe a reflexão dos atos, homens fazerem um texto bem escrito, listando os méritos e direitos das mulheres, pode não ser o caminho. Deveríamos apenas escrever: DESCULPA! Pedir desculpas a você negro, negra, mulher, gay, lésbica, gordo, morador de rua, todos vocês que passam por coisas que eu nem imagino. Pedir desculpas e começar a abrir o sorriso sincero, antes mesmo de abrir as portas, abrir o coração e convidar a entrar. Pois ninguém tem o direito de dormir no sereno.