Márcio Melo – O sucesso do artista plástico brasileiro no Canadá

Obra do artista plástico Márcio Melo: Oxum au Soleil (Foto: arquivo pessoal)

Fazer sucesso em um país estrangeiro exige bem mais do que empenho, determinação e talento. É preciso ter jogo de cintura, resiliência e uma dedicação incansável à própria arte. Esse tem sido o caminho trilhado com maestria pelo artista plástico brasileiro Márcio Melo, que vem conquistando, com originalidade e consistência, um espaço cada vez mais relevante no cenário artístico do Canadá.

Radicado no país desde 1987, Márcio se destacou por seu estilo singular, caracterizado pelo uso de cores vibrantes, formas ousadas e composições que transitam com fluidez entre o abstrato e o realismo. Sua obra é profundamente versátil: ao longo das décadas, ele dominou uma ampla gama de técnicas e materiais — como aquarela, giz de cera conté, acrílico e óleo. Mais recentemente, incorporou à sua produção os recursos da arte digital, sem jamais abrir mão da expressividade e autenticidade que fazem parte da sua trajetória.

Parte do reconhecimento que Márcio Melo vem conquistando no exterior se deve também à força e originalidade da arte brasileira, que inspira seu trabalho — uma expressão cultural rica e profundamente enraizada nas tradições populares, na mistura étnica e na exuberância tropical. Essa energia, marcada pela liberdade criativa e pelo diálogo entre o tradicional e o contemporâneo, o regional e o universal, está presente em cada uma de suas obras.

Antes de se estabelecer no Canadá, Melo atuou como arquiteto e designer no Brasil, dedicando-se à preservação do patrimônio histórico de Recife e Olinda — experiência que ampliou seu repertório visual e refina, até hoje, a sua linguagem artística.

Atualmente, ele é presença marcante na cena cultural de Ottawa, onde construiu uma reputação sólida e respeitada. Sua trajetória tem atraído a atenção da mídia local e regional, com artigos e reportagens publicados em veículos de destaque como Ottawa Sun, Ottawa Citizen, XPress, The Pontiac Journal, The West Quebec Post, entre outros. Essa visibilidade crescente tem consolidado ainda mais a sua posição dentro da comunidade artística canadense — e ampliado o seu reconhecimento além das fronteiras.

Suas obras, presentes em coleções particulares e corporativas, já chegaram a diversos países — entre eles Canadá, Estados Unidos, Itália, França, Inglaterra, Portugal, China, Brasil, Áustria, Alemanha e Suíça. Essa projeção internacional reforça a potência de sua arte, capaz de atravessar fronteiras, conectar culturas e provocar reflexões universais, sem jamais perder a autenticidade de suas raízes verde e amarelas.


Exposição de novembro 2025 a abril 2026. Ivey Galleries do Museum London, Ontário
TROPI-X: Brazilian Art in Canada from the 70’s to the Present


Entrevista com Márcio Melo

WAVE MAGAZINE – O que o motivou a escolher o Canadá para viver? Houve algum fator específico que influenciou sua decisão de deixar o Brasil?
MÁRCIO MELO – A minha decisão de sair do Brasil, no final dos anos 80, se deu de forma muito acidental. Eu era um arquiteto recém-formado, mas sempre tive o desejo de ser pintor. Eu já falava inglês e, na hora de escolher um destino para estudar fora, o Canadá se apresentou como opção. A realização do sonho de ser artista profissional só aconteceria mais tarde, depois que eu me tornasse residente permanente e pudesse me dedicar a esse trabalho de forma integral.

WAVE MAGAZINE – Como foram os seus primeiros anos no país? A adaptação à nova cultura, clima e idioma trouxe desafios? Como você lidou com essas mudanças?
MÁRCIO MELO – O fato de eu já falar inglês definitivamente acelerou meu processo de adaptação à cultura canadense. Ao mesmo tempo, o francês, por ser uma língua latina, também me favoreceu.
​No que diz respeito à minha arte e ao exercício de me expressar por meio do desenho e da pintura, encontrar-me subitamente entre dois extremos culturais — o Brasil e o Canadá — representou um grande desafio. Felizmente, eu soube conciliar essas influências sem ter que optar por uma delas.

WAVE MAGAZINE – Como foi o processo para trazer a sua produção artística para o Canadá? O público canadense recebeu bem o seu trabalho desde o início, ou foi necessário conquistar esse espaço aos poucos?
MÁRCIO MELO – Eu passei grande parte da minha infância desenhando. Na adolescência, gostava de visitar a Galeria de Arte Metropolitana do Recife para contemplar os trabalhos de Lula Cardoso Ayres e Vicente do Rêgo Monteiro, entre outros nomes exemplares da arte moderna pernambucana.

​Quando cheguei ao Canadá, já trazia comigo indícios do que gostaria de produzir artisticamente. Depois de muitos cursos de arte no Algonquin College, em Ottawa, e na Universidade do Quebec, em Hull, decidi finalmente me dedicar ao desenho e à pintura de forma integral.

​Com o passar dos anos, fiz muitas exposições, algumas em colaboração com a Embaixada do Brasil em Ottawa, sempre conciliando temas e imagens que refletissem a minha dualidade cultural. Tive a sorte de ser bem recebido pelo meu trabalho, mas reconheço que a jornada de um artista passa por muitas mudanças e nem sempre o que ele produz é compreendido.

WAVE MAGAZINE – Em 1997, algumas de suas obras foram consideradas inadequadas pelo National Capital Commission e removidas de uma exposição no Parque Gatineau. Como você vivenciou esse episódio? Acredita que houve censura? E, na sua visão, esse tipo de situação mudou desde então?
MÁRCIO MELO – Em 1997, eu fiz uma série de aquarelas que representavam personagens masculinos e femininos se banhando em cachoeiras, fontes, lagos e rios, à maneira dos impressionistas (Renoir). Apesar de apresentarem um aspecto mais gráfico e uma estilização menos realista, mais parecida com vitrais, o objetivo era criar imagens que reverenciassem a nossa relação com o elemento água.
​Em uma determinada ocasião, ao participar da turnê artística “Artists in Their Environment”, como artista convidado, esses trabalhos foram censurados como impróprios para o público familiar, enquanto expostos no Park Visitors Centre, em Old Chelsea, Quebec. Isso me deixou absolutamente estupefato!

​Eu não me oponho a artistas que desejam chocar intencionalmente como abordagem artística, mas essa não era, definitivamente, a minha intenção.

​No que diz respeito à sua pergunta sobre se a situação se apresentaria de forma diferente na época atual, como eu não voltei a vivenciar outras situações semelhantes ao apresentar meus trabalhos em futuras exposições, fica difícil dizer como esse episódio se daria se acontecesse agora. Mas, sinceramente, acho que sempre haverá má compreensão, por parte de alguns, em relação ao trabalho realizado por certos artistas.

WAVE MAGAZINE – Você participou do programa “Rockburn and Company”, da CBC. Como foi essa experiência? Que impacto teve em sua carreira ou visibilidade como artista?
MÁRCIO MELO – O programa “Rockburn and Company” foi uma sinopse perfeita do meu estilo de vida e carreira na época, gerando reconhecimento pelo que eu fazia e incentivando-me a prosseguir nessa direção. Naquele tempo, eu morava em uma fazenda na região de Pontiac, em Quebec, em um ambiente absolutamente adequado à pintura. ​A casa ficava na encosta de um lago, e eu fazia parte de uma comunidade de artistas e amantes da arte que ajudaram a forjar a minha identidade como artista canadense. Ken Rockburn, o apresentador do programa, é até hoje um grande amigo e colecionador de muitas das minhas obras.

WAVE MAGAZINE – Quais são as principais diferenças entre o Brasil e o Canadá para um profissional das artes plásticas como você?
MÁRCIO MELO – Como grande parte do que realizei artisticamente se deu aqui no Canadá, a única maneira de responder a essa pergunta seria relatando um pouco da minha própria experiência como artista local. O Canadá é um país que tem muitos programas de incentivo e apoio às artes.

​No começo dos anos 2000, eu submeti um projeto ao Ministério da Cultura de Quebec para ser incluído no programa “A Cultura nas Escolas”. O projeto visava à criação de murais em escolas primárias e secundárias, valorizando os princípios de colaboração entre o artista e os próprios participantes.

​Desde então, realizei cerca de 250 murais em escolas de várias regiões de Quebec, o que definitivamente me permitiu viver da arte. O processo criativo desses projetos me proporcionou milhares de encontros com estudantes, beneficiando minha visibilidade e me enriquecendo profundamente em um ponto de vista pessoal.

​As outras oportunidades, como expor em galerias ou a comercialização de trabalhos artísticos, são obviamente relativas diante do fenômeno de globalização das artes. No entanto, posso afirmar que o Canadá, como um país com grande senso de apreciação e poder de aquisição de obras de arte, torna a escolha de um caminho nas artes algo mais tangível.

WAVE MAGAZINE – Quais são os seus próximos projetos?
MÁRCIO MELO – Nos últimos anos, eu tenho ampliado o meu processo criativo, trabalhando com técnicas e em situações diversas. Em 2019, iniciei uma série de murais com crianças com menos de cinco anos, mostrando que nunca é cedo demais para se expressar artisticamente.
​Este ano, farei parte de uma exposição na qual apresentarei dois trabalhos em forma de impressões digitais. A exposição “TROPI-X: Brazilian Art in Canada from the 70’s to the Present”, com curadoria de Rodrigo D’Alcântara e Alena Robin, acontecerá nas Ivey Galleries do Museum London, em Ontário, e ficará em cartaz de novembro de 2025 a abril de 2026. ​

Essas obras farão parte do núcleo curatorial “Folklore Remix”, que explorará temas e composições dedicados a desafiar e dialogar com a noção de folclore brasileiro. Para mim, a exposição será uma oportunidade de compartilhar um pouco da minha trajetória como artista pertencente a duas culturas fascinantes e diversas.

​Será um prazer vê-los na abertura, que acontecerá no dia 22 de novembro!


As obras de Márcio Melo podem também ser vistas online e muitas estão disponíveis para a venda. Instagram: @marcio_melo_art / Website: www.marciomelo.com



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