O cenário político brasileiro

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O retrato do cenário político/social do Brasil na ultima década é o mais complexo desde meados dos anos 1990, em que explodiu escândalos, impeachment e a criação do plano real. Passando pela calmaria do início do século, marcado por políticas sociais assíduas, ótima política internacional e relações coesas nos três poderes, o país cai novamente em escândalos de corrupção. O mensalão que consistiu no repasse dos fundos de empresas, que faziam doações ao PT e a outros partidos, para conquistar o apoio dos políticos. O “Petrolão” que foi um esquema bilionário de corrupção na Petrobras, envolvia cobrança de propinas nas empreiteiras, lavagem de dinheiro, evasão de dívidas e superfaturamentos de obras contratadas para abastecer os cofres dos partidos, funcionários da estatal e políticos. O esquema de corrupção foi o grande trunfo da operação Lava ]ato que ganhou notoriedade em todo mundo.

O cenário estava pronto para uma próxima década conturbada, começando pelo judiciário sendo pressionado a dar voz de prisão não somente aos envolvidos comprovados, mas também as lideranças, sem uma investigação aprofundada – que com o tempo demonstrou-se não totalmente eficaz. O Brasil passa novamente por período de protestos, o fervor é potencializado pelo surgimento das redes sociais, democratizando o discurso, mas também sendo uma via sem pedágio para disseminação do ódio, preconceito de todos os tipos e extremismo.

Fernando Collor de Melo (PRN), em 1992, convocou a nação para sair as ruas de verde e amarelo no dia 7 de setembro. A suposta razão era a soberania da Amazônia, mas a real percepção do que que se alastrava no governo era a de isolamento político. Contrariando Collor, os brasileiros vestiram preto e aceleraram o pedido de impeachment do presidente. Em junho de 2013, as ruas foram ocupadas, em catarse, por diversos segmentos sociais. Em 2014, no contexto da eleição presidencial, as ruas e as redes se polarizaram. O antipetismo era o fator de coesão dos verde-amarelos que, em 2015, pediram o impeachment de Dilma Rousseff se apropriando das mesmas ruas. A narrativa do impeachment, que não foi comprovada com dados concretos, acabou sendo combatida com a narrativa do golpe, apontado por diversos juristas como injustificável. A avenida Paulista, onde couberam todos em 2013, se transformou em espaço de polarização em 2015. No coração desta dinâmica de enfrentamento social, o PT e seus significados, PSBD respirando por aparelhos, buscando novas lideranças. Dilma é destituída, a Lava Jato avança e, na mesma Paulista onde o populismo antipetista era gritado, o slogan agora é a antipolítica, “faxina geral”.

A conjunção de desrespeito, falta de reconhecimento na política externa e diversos outros fatores são também oriundos do dia 26 de outubro de 2014, quando o então candidato tucano derrotado na eleição presidencial, Aécio Neves (PSDB), não reconhece a vitória da concorrente e coloca em xeque a legitimidade do voto. A narrativa continua ganhando força em 31 de agosto, quando Dilma (PT) é oficialmente destituída e Michel Temer (MDB) assume a presidência. Temer passou boa parte do seu governo com popularidade baixa e questionada, cotidianamente faixas e gritos de “fora temer” eram manchetes e o então presidente de forma pragmática parecia conviver bem com a situação. Seu governo foi basicamente reformista, mesmo com câmara e senado polarizados conseguiu em julho de 2017 a aprovação da reforma trabalhista, que deu respiro ao governo. Temer termina seu mandato buscando também a reforma da previdência, não obtendo sucesso, mas deixando a pauta em aberto para seu sucessor.

Diferentemente do governo anterior, a bússola do governo Jair Bolsonaro (PSL) é a ideologia. Desde o início da campanha vem conquistando fieis com discursos religiosos – em um país cristão é a estratégia perfeita, e contando principalmente com a força do antipetismo. O deserto de ideias e estratégias políticas detectados, a campanha de Bolsonaro se concretiza no primeiro ano, marcado coerentemente somente pelas batalhas ideológicas. Apesar de não haver nenhuma denuncia de corrupção no governo, a família Bolsonaro foi manchete em escândalo de envolvimento com a milícia do Rio de Janeiro entre outros, em que seus filhos e fieis escudeiros estão envolvidos. A economia parece ser, a seu modo, o setor que mais funciona no governo. A eficiência do ministro Paulo Guedes foi preponderante para se chegar a um consenso na aprovação da polêmica reforma da previdência, em 23 de outubro de 2019.

Portanto, a conjunção histórica atual do Brasil conta com a efervescência do debate político, acompanhada de definições binárias entre extremos. Características que tornam a polarização política, ideológica e social um oásis para que o país tenha mais de 35 partidos. Em 2020 as eleições já prometem um clima de forte competição e alianças políticas, fechando o cerco pra 2022.