
Quando o Canadá celebra o Mês da Herança Latino-Americana, em outubro, muitos brasileiros que vivem por aqui se fazem a mesma pergunta: será que nós também somos considerados latinos?
A resposta é sim, somos.
De acordo com o Statistics Canada, o termo Latin American abrange pessoas com origem ou ancestralidade em países da América Latina — o que inclui as Américas do Sul, do Norte e Central — e partes do Caribe. Ou seja, falar português, e não o espanhol, também nos dá o passaporte latino.
Mas, na prática, a questão é mais sutil.
Muitos brasileiros não se identificam de imediato com o rótulo “latino”, talvez porque o idioma e parte da cultura brasileira tenham uma identidade única dentro da América Latina. Há quem diga: “Não falo espanhol, então não sou latino.” Outros, porém, abraçam com orgulho a ideia de pertencer a uma grande família continental — diversa, criativa e resiliente.
O curioso é que, para o olhar canadense, não há distinção.
No Canadá multicultural, o Brasil aparece sempre ao lado de países como México, Colômbia, Chile e Peru nos eventos, nas estatísticas e nas celebrações. O Latin American Heritage Month é prova disso: a cada outubro, festivais em Toronto, Vancouver e Montreal reúnem o samba, o tango, a salsa e o reggaeton em uma mesma batida.
Somos 540 mil no Canadá
Segundo o Censo de 2021, mais de 540 mil pessoas no Canadá se identificam como tendo origens latino-americanas — e esse número não para de crescer. Só na região metropolitana de Toronto, há mais de 150 mil. Entre eles, uma presença brasileira cada vez mais visível: cafés que servem pão de queijo, rodas de capoeira em parques, blocos de carnaval no verão e, claro, muitos sotaques familiares no metrô.
Para os canadenses, essa diversidade é parte do que define o país. O multiculturalismo, política oficial desde a década de 1970, incentiva que cada grupo preserve sua herança cultural — e compartilhe com os demais. Assim, o termo “latino”, no Canadá, ganha um significado mais amplo e uma identidade cultural viva, que se expressa em arte, comida, música e idioma.
O português e o espanhol
O português é hoje um dos 15 idiomas mais falados “em casa” no Canadá, e cresce rapidamente. Isso se deve, em grande parte, à imigração brasileira mais recente. Ao mesmo tempo, o espanhol já está entre os dez mais usados. Juntos, os dois idiomas marcam uma presença cultural bem expressiva no país.
Em eventos multiculturais, é comum ver brasileiros conversando com colombianos em “portunhol”, mexicanos dançando samba e canadenses se arriscando no português. É nesse espaço de mistura que a ideia de “latino” ganha uma nova dimensão — menos sobre fronteiras, mais sobre conexão.
Identidade em movimento
Entre os jovens canadenses de origem latino-americana, há um sentimento crescente de pertencimento múltiplo. Muitos nasceram aqui, falam inglês como primeira língua, mas querem manter as tradições dos pais e avós.
Pesquisas indicam que 60% desses jovens se interessam em participar de atividades culturais ligadas à sua origem. No caso dos brasileiros, essa nova geração ajuda a redefinir o que é ser latino no Canadá. Um latino que fala português, que mistura samba com reggaeton, que celebra o Thanksgiving com farofa e o Natal com rabanada e guacamole.
A força de uma palavra
Talvez “latino” seja menos uma categoria e mais um sentimento: o de pertencer a algo maior, de compartilhar uma herança feita de histórias de migração, de trabalho e de alegria. Quando o Canadá celebra o Latin American Heritage Month, celebra também o Brasil — com seus ritmos, sabores e cores.
Ser latino, afinal, não é uma questão de idioma, mas de identidade compartilhada. E, nesse sentido, nós brasileiros temos muito a dizer — e a celebrar nesse mês de outubro.












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