O retrato

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A palavra é antiga e antigas eram as fotos que acabara de receber pelo whatsapp.

Uma dessas fotografias me despertou uma vontade imensa de conhecer a personagem retratada… Imaginei que fora feita no final dos anos 1930 e entendi que era carnaval. A felicidade daquela mulher me surpreendeu e encantou. Fantasiada e fazendo careta, devia estar vivendo um momento maravilhoso, pois o carnaval de rua daquele tempo devia ser assim, bem divertido.

Tentei imaginar se tivera grandes sonhos e quais seriam. Se os tinha realizado ou mudara o curso da vida como acontece com muita gente.

Soube que morava em Copacabana, que foi enfermeira voluntária da Cruz Vermelha durante a Segunda Guerra, que recebeu o “Baptismo Aéreo” do Aero Club do Brasil em novembro de 1941 e que anos depois ultrapassou a barreira do som em julho de 1978, a bordo do Concorde.

Tinha olhos azuis, pele morena e um belo sorriso. Infelizmente fumava. Devia ser glamoroso naqueles dias.

Sagaz, bem humorada e louca por viagens, conheceu o mundo e realizou seu sonho de morar em Paris.

Como seu pai, que foi poeta e historiador, gostava de escrever e falava muito, era uma exímia contadora de histórias. Fascinava crianças com suas descrições incríveis de mundos inimagináveis.

Fez muitas amizades ao longo da vida e adorava ficar horas ao telefone com as amigas.

Me disseram que um dia conheceu um viúvo por quem se apaixonou e viveu um grande amor. Esse amor durou até a morte dele, e em seu coração até a morte dela.

Viveu plenamente por 80 anos. Teve dias amargos, felizes, encantadores e decepcionantes. Como a vida deveria ser, ela riu e chorou. Acredito que os sorrisos foram mais frequentes do que as lágrimas. Mas como saber?

Se chamava Maria Victória. Era mais conhecida como Vicky.

Eu a chamava de mamãe!