O audiovisual tem se desenvolvido no Canadá como em poucos países do mundo. É grande a participação de empresas americanas na produção local e o número de escolas oferecendo capacitação para quem pretende ingressar no mercado. Esse contexto tem atraído diversos brasileiros que sonham em ser cineastas.

Estudante da turma 2024/2025 do Centennial College, em Toronto, Júlia Rigaud nasceu em Salvador-BA e sempre quis trabalhar com cinema. Mas a escassez de cursos e a falta de incentivo a levaram a outra profissão. Em 2019, formada em psicologia, retomou o sonho.
Em sua cidade natal, fez cursos livres e teve contato com as diferentes áreas cinematográficas, como captação, escrita de roteiro e pós-produção. “Aprendi a usar uma câmera, editar e fazer network. Comecei então uns trabalhos gravando videoclipe, casamento e vídeos institucionais”, relembra.
Dois sonhos motivaram a vinda ao Canadá. Além do cinema, Júlia almejava viver em um país de língua inglesa e sabia que os melhores cenários para isso seriam Canadá ou EUA. Pesou na escolha a receptividade canadense. “O país se mostrou ideal para meu plano. Sabia que a indústria aqui é muito ativa por conta do número de gravações”, disse.
Na escolha do curso, priorizou os que oferecessem formações completas, pois deseja experimentar todas as etapas do processo. “Quero ter conhecimento das áreas para entender qual me identifico mais”.
Três meses após a mudança, já teve as primeiras oportunidades de trabalho e segue otimista. “Tem um cenário próspero aqui e estamos em contato com ex-alunos que estão ativos na indústria”, destacou.
Professor brasileiro
Professor do Centennial e editor do estúdio 9 Story Group, o publicitário brasiliense João Pácifer chegou em Toronto em 2012, depois de ser informado que o curso em Vancouver, onde estava matriculado, não abriria turma naquele ano. Após idas e vindas, matriculou-se na Toronto Film School e, com muito esforço e sem ganhar nada nos primeiros trabalhos, foi se inserindo no mercado. “Quem está nessa área tem muita paixão pelo o que faz. Eu queria fazer todos os trabalhos. Assim comecei meu network. Comi bastante capim antes de poder andar no campo”, disse.
Os frutos de tanta dedicação foram colhidos ao concluir o curso, em 2014. “Reativei meus contatos que fiz no voluntariado e consegui uma vaga no estúdio de pós-produção”, relembrou João.
Sonho que foi descoberto
A paulistana Marina Loretti, desde 2019, vive em Vancouver. Ex-aluna da Vancouver Film School, está construindo uma carreira como produtora. O cinema para ela não foi um sonho de infância. “Sempre adorei filmes e desenhos, frequentar os cinemas de São Paulo, mas não cresci querendo trabalhar com isso. Foi algo que enxerguei mais tarde”.

Na escola tradicional onde concluiu o ensino médio não encontrava espaço para desejar nada além de ser médica, engenheira ou advogada. Após ingressar em um curso pré-vestibular, as coisas mudaram e decidiu estudar cinema na Fundação Armando Álvares Penteado – FAAP.
“Me apaixonei pelo currículo. Não tinha uma aula em que eu não ficasse animada”.
Mão na massa
O curso da Vancouver Film School, onde Marina ingressou em 2015, além da teoria, ofereceu muita prática. “Foi mão na massa e feedbacks de professores apaixonados pelo que ensinavam. Sinto que aprendi e evoluí mais rápido do que na minha graduação no Brasil”, opina.
A carreira no Canadá começou como assistente de produção (PA), cuja função, ela conta, é diferente do que se faz no Brasil. Enquanto lá, o PA cuida do operacional e passa horas no escritório, aqui ele mantém a locação arrumada, limpa e segura.
“Achava engraçado ficar parada numa esquina por horas, só porque tinha algum gerador ou carro da equipe estacionado. Mas tive dias bem legais onde ficava perto da ação, assistia atores trabalhando e entendi como funciona a indústria”.
Diária a diária, chegou às grandes produções, como as séries Batwoman e Arrow e os filmes Shazam II e Bullet Train. Nos primeiros trabalhos, se impressionava com as toneladas de equipamento e equipes gigantescas.
“Tinha quase três quarteirões de caminhões de equipamento, várias ruas fechadas em Downtown Vancouver, centenas de PAs de coletinho neon espalhados. Fiquei emocionada e muito muito realizada de ter chegado ali”.
Mudança de ares
A rotina puxada dos sets levou Marina a uma mudança na carreira. Em busca de mais tempo para outros projetos, procurou uma vaga no estúdio Double Negative, para trabalhar com pós-produção. “Tive que aprender Shotgun/Shotgrid do zero e como funciona a pipeline de um estúdio de VFX”, explica.
Hoje, ela também mantém um canal no Youtube e o podcast De Mãe Pra Mãe. “Amo tudo que faço, não consigo abrir mão de nada, mas admito que estou precisando de férias”, concluiu.
Mercado dinâmico
Segundo o professor João Pácifer, o mercado do audiovisual como um todo está em constante transformação. Ele conta que o barateamento de tecnologias, a pulverização do consumo de mídia e a inserção de profissionais sem tanto conhecimento técnico na área, dentre outros fatores, reduziram os orçamentos das produções.
Diante desse cenário, João imagina que haverá uma readequação orçamentária e um aumento do dinamismo da indústria. “A gente vai continuar produzindo conteúdo, mas as pessoas vão cada vez mais trabalhar por projeto e não com contratos longos”, opina.




























