
A cineasta Vanessa Sandre alcançou um feito histórico ao se tornar a primeira brasileira selecionada para o Norman Jewison Film Program, do Canadian Film Centre (CFC). Apaixonada pela sétima arte, Vanessa ganhou projeção com o curta-metragem O Prazer é Todo Meu, que percorreu mais de 40 festivais internacionais e faturou 30 prêmios.
Sua conexão com a arte nasceu no início da adolescência, quando experimentou o teatro e a dança. “Essa paixão foi tão forte que não consegui me imaginar fazendo nada de diferente na vida”, conta. Para a família, por sua vez, não foi muito fácil entender a vocação. Vanessa, no entanto, seguiu seu destino.
Ela prestou vestibular para Cinema e Teatro e decidiu pela primeira opção. “Amava assistir filmes e queria expandir meus horizontes, ter novas experiências, estar em um set de filmagem, criar”, disse.
Vanessa acredita que a arte é, acima de tudo, intuição, algo que nos move para além de nós mesmos. “Não é só uma profissão ou um hobby, é uma maneira de ver e viver a vida. Fico muito feliz de, mesmo com todas as barreiras, ter bancado o meu desejo e acreditado na minha intuição de que aquele era o meu caminho”, afirmou.
Amor, aventura e oportunidade
Radicada na cidade de Toronto, Vanessa mudou-se para o Canadá movida por amor e aventura. Ela lembra que conheceu o marido – canadense – quando ele estava de passagem pelo Brasil. Começaram o namoro e, conforme o relacionamento foi amadurecendo, precisaram definir onde iriam morar.
“Como ele não fala português, seria difícil para ele trabalhar no Brasil. Já para mim, fazia sentido vir para o Canadá por conta das oportunidades na área do cinema, além de eu adorar uma aventura. Então entendemos que o melhor seria eu me mudar para cá”.
Ao traçar um paralelo com o Brasil, ela conta que a indústria cinematográfica aqui está focada na produção de conteúdos estadunidenses. Porém, quando o assunto é cinema autoral, os cenários são parecidos e em ambos os contextos se depende muito de incentivos públicos.
“É uma luta interminável para conseguir dinheiro para os filmes. Ou seja, fazer cinema é difícil em qualquer lugar. Ainda mais quando, como no meu caso, a expertise é mais do lado criativo do que técnico”, disse.
Vanessa destaca o grande número de projetos que existem no Canadá voltados para criadores BIPOC (Black, Indigenous and People of Color), mulheres e pessoas não-binárias. Ela conta que essas políticas de diversidade e inclusão auxiliam muito os artistas emergentes, assim como diversificam as histórias e pontos de vista dos filmes.
“Para mim está sendo uma experiência incrível porque nunca tive a oportunidade de participar em diferentes programas como agora. Como artista emergente, sinto que tenho mais suporte aqui do que tinha no Brasil”, afirma.
O Prazer é Todo Meu
O seu filme de maior destaque até o momento é o curta-metragem O Prazer é Todo Meu, que aborda a temática da sexualidade na velhice. Rodar o projeto foi um enorme desafio que levou anos para ser concretizado.
Vanessa conseguiu financiamento por meio do Edital Catarinense de Cinema, quando morava em Florianópolis, e planejava filmar em 2020. Mas, com a pandemia e a mudança para o Canadá, a produção acabou se estendendo por mais três anos.
“Foi angustiante, mas hoje entendo que todo esse tempo adicional de preparação fez diferença. É um filme que aborda uma temática delicada e ainda considerada tabu. Quando lidamos com assuntos complexos assim, é essencial que sejam tratados com o tempo e o cuidado necessários”, refletiu.
Ela lembra ainda que a distribuição teve um início difícil, com vários festivais recusando a obra. “Acredito que, por ser um tema sensível, e pelo fato de a maioria dos programadores ainda serem homens brancos, isso tenha sido uma barreira”, disse.
As coisas só começaram a mudar quando festivais voltados ao público LGBTQIAP+ acreditaram na ideia. “Esses festivais mostraram uma maior abertura para discutir temas ligados à sexualidade, e foi onde tivemos a melhor recepção. Depois disso, o filme passou a ser selecionado por diversos outros festivais, inclusive muitos no Canadá”.
Sonho se realizando
Desde que deixou o Brasil e desembarcou no Canadá, Vanessa tinha o sonho de participar do Canadian Film Centre. Ela se voluntariou em um dos sets de filmagem logo que chegou ao país, em 2021, e ficou encantada com o que viu. “Não tenho conhecimento de outro programa tão completo quanto esse em nenhum lugar: são seis meses de laboratório focado tanto no desenvolvimento da sua voz como artista quanto no seu entendimento da indústria cinematográfica”, descreveu animada.
Na época, ainda estava em fase de adaptação à nova vida e precisava de mais ferramentas para se sentir realmente segura para tentar uma vaga. “Foram alguns anos de preparação e adaptação até chegar no momento em que senti que estava no nível para ser considerada para o programa”.
A seleção é rigorosa. Para se inscrever é necessário apresentar o corpo de trabalho, os projetos já realizados e que se destacaram, além do histórico do desenvolvimento da carreira. Também são avaliados os projetos desenvolvidos no momento da inscrição.
“O programa tem como objetivo impulsionar a carreira dos participantes, então eles querem ter certeza de que você está envolvida com projetos relevantes, que reflitam a sua voz como cineasta”, disse.
Após o envio do material escrito, há uma segunda etapa, na qual algumas pessoas são selecionadas para entrevista. “Eu me sinto muito sortuda de ter sido selecionada, mas também sei que isso é resultado de muitos anos de dedicação e superação, até chegar aqui”.
Nesses seis meses de imersão, Vanessa espera poder entender melhor o funcionamento da indústria do audiovisual no Canadá. Quer conhecer agentes e profissionais que possam lhe auxiliar na realização de um longa-metragem, além de expandir sua rede de contatos, contribuindo e aprendendo com outros criadores.
Saulo Miguez é jornalista, colaborador da revista Wave Magazine pelo programa Local Journalism Iniciative (LJI), com apoio do governo do Canadá.















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