Nunca me esqueci do Canadá

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Crônica: Nunca me esqueci do Canadá. (Carolina Botelho)

Em 1970, eu tinha cinco anos e morava no Rio de Janeiro. Lembro-me que era um domingo chuvoso e sem praia. Assim, não havia muitas opções de bons programas. Parecia que o dia ia ser longo, mas, em um estalo de animação, uma de minhas irmãs mais velhas teve uma excelente ideia. Convidou-me para assistirmos a um filme infantil que recém estreara. Como eu nunca tinha ido ao cinema, a proposta causou-me uma grande agitação. O coração batia forte e o meu rosto era pura felicidade!

Quem é mais ou menos da minha época, deve se lembrar de que ir ao cinema era um programa especial e nos dava a oportunidade de usarmos roupas novas. Por esse motivo, minha irmã recomendou-me que eu fosse com a minha sainha predileta: vermelha. E para bem combinar, separou-me uma blusinha, que eu acabara de ganhar de presente: branca. Dessa forma, ensinou-me serem o vermelho e o branco, as cores da bandeira do Canadá, que era, justamente, onde se passava o filme que iríamos ver. Naquele instante, junto com emoção do primeiro filme da minha vida, brotou em mim a vontade de, um dia, conhecer esse país.

Chegando ao cinema, o tamanho da tela foi minha primeira surpresa. Ocupando uma parede inteirinha, me mostrava imagens gigantes. Além disso, as luzes fortes e o belo colorido do filme contrastavam com a escuridão do resto do ambiente. O mais importante, porém, era que toda essa atmosfera criada vinha com um convite para eu soltar a minha imaginação.

O título do filme, por si só, já era bem sugestivo para uma criança pequena: “Minha Montanha Encantada” (https://en.wikipedia.org/wiki/My_Side_of_the_Mountain_(film). Como minha irmã havia me indicado, a estória se passava no Canadá. Um menino de 12 anos era a personagem principal. Morador da cidade de Toronto, ele amava a natureza selvagem. Um belo dia, alimentado pela vontade de ser pesquisador, Sam resolveu partir para as Montanhas Apalaches, enfrentando ali, ursos ferozes e tempestades de neve.

Para mim, no entanto, o que Sam ia vivendo na tela ia se misturando com as minhas próprias brincadeiras e invencionices. O envolvimento foi crescendo a tal ponto, que a partir de certo momento, eu já não era mais somente uma espectadora, senão que também, a própria protagonista da aventura. Quem percorria as montanhas, observava animais e aprendia sobre a cultura local já não era mais o Sam: era eu!

Enquanto escrevo essa crônica, me dou conta da importância desse momento da infância, ao longo da minha vida. Isso porque, quando já adulta, estudei biodiversidade, trabalhei com florestas tropicais e conheci diversos povos em diferentes lugares do Brasil e do mundo. Percebo, nesse processo, que, de diferentes modos, os esguios pinheiros somaram-se aos frondosos jequitibás; os ferozes ursos das montanhas, aos comunicativos macacos das matas e as frias tempestades de neve, às torrenciais chuvas dos trópicos. Fica assim evidente, que depois de tanto tempo, eu não tinha me esquecido do Canadá.

Hoje, aqueles meus cinco anos de idade já evoluíram para mais de cinquenta. Aquela minha irmã que me apresentou aos encantamentos do filme, vive em Toronto há décadas. E minha oportunidade de viajar para o Canadá, finalmente chegou em 2017. Juntei um dinheirinho, tirei férias do trabalho e parti para conhecer o lugar que tanto havia me cativado quando criança. Vocês podem imaginar, então, que diante de um programa tão especial, roupas novas não faltaram na minha mala! Muito menos, as boas lembranças das aventuras de infância.